SE ESSE ROSTO FOSSE MEU
Ara é muda. Literalmente muda. Um incidente a fez perder completamente a capacidade de emitir sons, mesmo que o problema principal tenha acontecido com seus ouvidos. Kyuri é acompanhante, porque a vida quis assim. Wonna tem tantos traumas de infância que quase se mantém na inércia absoluta. Miho está vivendo uma vida que não gosta, mas da qual não consegue se afastar.
E é assim que começa “Se esse rosto fosse meu”.
A trama acompanha essas quatro mulheres e suas vidas que sobem e descem em uma montanha-russa social e emocional. Ao lado delas, Sujin, age como um tipo de elo narrativo. E tudo acaba sendo muito delicioso.
Com críticas pertinentes e sutis sobre o estilo de vida coreano, aquele que os kdramas evitam exibir e cutucar, a autora cria uma narrativa bem elaborada.
Obviamente, sendo um livro sul-coreano, o final está aberto para imaginarmos o que acontece depois do plot de cada personagem, mas é importante dizer que é um final feliz. Feliz ao seu modo, mas feliz.
Com apenas 278 páginas, é fácil terminar a história em dois ou três dias, dependendo do tempo livre, mas a reflexão final é imensa…
Cha fala sobre questões feministas na Coreia do Sul e de como a maioria das coreanas ainda não avançou no debate e o quanto isso as prejudica a longo prazo. Licença maternidade, plano de carreira, impacto pós divórcio e compulsão por estética e plásticas, fora a questão da saúde mental e do capitalismo que impacta o poder de compra. O impacto midiático sobre a imagem dos seus idols e a ideia óbvia sobre o tal “fan service” que se espera de pessoas famosas…
As críticas são deliciosas e sutis. É fácil repensar algumas visões pessoais sobre a vida sem nem perceber que está fazendo isso.
Os debates são tão interessantes, que cheguei a pesquisar sobre o tema dos idols e entendi que certo contexto da trama se aproxima de polêmicas e narrativas semelhantes à carreira de vários grupos de kpop que começaram em empresas menores. É bem curioso olhar todo o contexto por essa ótica.
A escrita de Cha é cuidadosa e explícita sobre o mundo real. O submundo de herdeiros e de crianças órfãs, narrativas que a mídia de turismo tem tentando evitar.
“Se esse rosto fosso meu” tem um peso forte e deveria ser leitura obrigatória de todo o público que se ilude com a propaganda de que a Coreia é idílica. Especialmente quando o assunto são cirurgias plásticas e o espaço da mulher na sociedade… A obra é forte, mesmo que seja sútil e leve.
Gosto de pensar que o livro ainda vai se tornar um estouro atemporal que reflete o impacto sombrio de nossos tempos, como um tipo de clássico moderno que jamais envelhece. Tem algo meio grotesco nas narrativas pessoais das protagonistas, e isso cativa e ajuda a fortalecer essa percepção que tive.
Cinco estrelas com direito a trilha sonora de kdrama. E a pergunta final é: o que você faria se outro rosto fosse seu?
Não sei o que eu faria, mas lembro de viver um grande período da minha infância imaginando outras vidas para mim… Essa narrativa abre esse espaço. Achei fascinante!
autor: Frances Cha
país: Coreia do Sul
leitura: livro físico
playlist: jeonju

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