SÓ OS ANIMAIS SALVAM

 




Colette, Virginia Woolf e Sylvia Plath são reunidas em fábulas que parecem improváveis, enquanto nos questionamos se existe um céu para os animais.

“Só os animais salvam” coloca a história humana em xeque. Recontando acontecimentos históricos pela perspectiva dos animais, passamos a entender um lado histórico que não tínhamos pensado antes; afinal, quando falamos de guerra, de fome e da violência humana, nos esquecemos de mencionar os animais que estão morrendo.

Curiosamente, quando a vida está boa, a raça humana tende a tratar animais como parte da família, como filhos até. Mas quando tudo desmorona, quem é que conta os cadáveres sob os destroços que, antes, eram seus bebês?

O ser humano é o animal mais cruel do mundo, mas gostamos de fingir que somos bons, porque os animais ainda não podem nos contradizer… Parece brutal, porque é brutal.

Ceridwen Dovey tem experiência em ver realidades problemáticas sendo invisibilizadas pela mídia. Nascida na África do Sul, usou seu tempo acadêmico para estudar os trabalhadores de vinícolas sul-africanas e expor algumas dessas questões em um documentário. E ao explorar a história pela perspectiva que ninguém tenta se arriscar, aprendemos mais sobre sua visão de mundo do que se pode imaginar.

A escrita é fácil e acessível, a narrativa que abraça as fábulas pode ser agradável para públicos de diversas idades. No entanto, quando o li, esperava mais.

Acredito que a principal falha da obra seja sua sinopse, que faz parecer que as histórias vão ser mais empolgantes do que de fato são, e isso causa uma expectativa imensa em quem compra a aparência marketeira da sinopse. Na época em que li, senti que o livro era menos interessante do que poderia.

Pura falta de comunicação entre a proposta real da obra e a versão escolhida para divulgar para o público.

Mas o tempo o inocentou.

Hoje, mais de dez anos depois, entendo melhor a proposta e abraço as fábulas de Dovey com carinho. Mesmo que entenda que não sou exatamente o seu público alvo.

Indico a obra com coração aberto, mais afetuosa com seus cenários e com sua proposta, me permitindo lhe dar até cinco estrelas sem receio algum. E acredito que essa seja a prova de que, de fato, o tempo cura tudo.

Com exceção, é claro, da vilania humana e sua interminável extensão.



autora: Ceridwen Dovey

país: Austrália

leitura: livro físico 

playlist: kemi

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