UMA CASA DE BONECAS

 




Nora é chamada de “cotovia” pelo marido com uma frequência que sugere uma paixão incontrolável. É quase fofo! Na casa dos Helmer, ao que parece, não falta amor… Mas Nora esconde um segredo.

Por mais que a premissa da sinopse tenha uma abordagem que sugere o suspense, não é isso que acontece. A peça é uma crítica social aos costumes antigos, quando a esposa não passava de uma governanta sem remuneração do próprio marido. O segredo de Nora não é nada demais; e como observadores do século XXI, achamos bobo o contexto e o ar de mistério.

Mas em 1800, quando o século ia virar para 1900, as coisas eram diferentes. E Ibsen desenhou isso muito bem em sua peça.

Quis ler “Uma casa de bonecas” desde que uma professora me contou sobre, e encontrei no Kindle uma nova edição por um ótimo valor… Pensei: “por que não?!”

Não houve arrependimentos.

Com uma abordagem fácil, a peça pode ser lida em um único dia, já que tem apenas três atos, e é muito interessante para quem está começando a estudar sobre feminismo.

Obviamente, não é uma peça feminista, mas tem em seus pontos que podem reverberar no tema. Especialmente porque Nora e sua amiga, senhora Linde, discutem muito sobre os deveres de uma esposa e sobre como a sobrevivência feminina era uma preocupação destinada a ser resolvida pelos homens.

O machismo escancarado de Helmer, que passa a tratar Nora como uma pessoa desprezível ao descobrir o segredo, abandonando o tom apaixonado, e afirmando que a desgraça que os espera só cairá sobre ele, e não sobre, é quase palpável.

Cuidadosamente analisado, até o nome da peça sugere sua crítica bem estruturada. Como mulheres eram simples adornos de seus maridos e suas casas eram reflexos disso, é fácil compreender o título escolhido.

Eles fingiam um casamento feliz, então sua casa não passava de uma alegoria.

Os diálogos certeiros são acessíveis para todos os públicos e a abordagem é delicada, sem explosões além das morais. E isso ajuda a adorar a obra.

Fiquei deleitada com a história e com a simplicidade que o autor deu a temas escandalosos para seu tempo.

É fácil entender o cenário abordado, porque tudo acontece em um único cômodo e o foco é total na emoção das personagens.

Ler “Uma casa de bonecas” enquanto lia “Anna Karênina” e “A inquilina de Wildfell Hall” elevou ainda mais a experiência, já que as três protagonistas enfrentam problemas em seus casamentos — mesmo que por diferentes razões.

Quase me permiti ficar melancólica com o destino feminino, que parece longe de uma melhora razoável nos próximos anos. Mas Nora é uma heroína que compensa essa desesperança.



autor: Henrik Ibsen

país: Noruega

leitura: Kindle

playlist: dr∅bak

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