A OUTRA FILHA
“Tenho a impressão de que o silêncio nos convinha, a eles e a mim.”
Isso foi o que Annie Ernaux escreveu para a irmã mais velha que nunca conheceu. E apesar de parecer cruel, eu entendo…
Nascer em uma família em que uma criança foi perdida antes do nascimento da criança que sobreviveu e cresceu, causa dores e magoas invisíveis difíceis a lidar a longo prazo. E foi com esse sentimento doloroso que a autora escreveu “A outra filha”.
Recriando a má memória da infância e da descoberta de ser a filha caçula e não a única, Annie Ernaux visita emoções complexas na obra. A principal — e mais dolorosa — é a certeza de que seus pais a amaram menos do que a irmã mais velha, falecida ainda na infância.
Escrito de uma forma que ora parece uma carta ora um diário, “A outra filha” expõe o desabafo curto da autora a dor não compreendida da sua relação familiar introvertida e fechada, fazendo menção ao doloroso sentimento de incerteza do que sentir sobre a criança que partiu.
Especialmente porque esse sempre foi um tabu familiar e seus pais nunca falaram da irmã para ela de forma aberta e clara.
Senti muito prazer ao ler o livro e passei um longo tempo encarando a parede depois de terminá-lo. Foi meio complexo e desesperador saber exatamente sobre o que Ernaux estava falando…
Ernaux tem um tipo curioso de humor ácido e brinca com isso de forma brutal, intensa e nada tímida. Sua relação com a mãe é atiçada pela memória da irmã sem que elas toquem no tema, e com um desabafo sincero sobre a perda dos pais, já idosos, e a incapacidade de lidar sozinha com esse segredo que sangrava em silêncio na família.
Tudo é muito anguloso e espinhento.
Ler Ernaux me deu a sensação de estar lendo a legenda de uma foto nas redes sociais. Ela coloca um sentimento de proximidade em seus textos e isso é fascinante. Faz sentido que tenha ficado tão popular nessa era da completa digitalização da vida…
No entanto, a obra realmente é boa. Cativa, estimula e sacia partes nossas que são difíceis de colocar em palavras. Especialmente porque o tema do livro é o luto.
Com todas as suas fases, que tiveram uma vida inteira para se instalar e reagir, a existência do luto não palpável e não vivido é inegável. E Ernaux lida com isso muito bem.
Agora perto dos 90 anos, a autora finalmente ganhou o mundo do público geral com suas observações sisudas sobre a vida. E eu adoro que seja assim.
Essa versão crua de nós mesmos mostra uma humanidade impecável, e debate sentimentos negativos com veracidade. Afinal, o ser humano é falho e tem mesmo todas essas coisas negativas navegando dentro de si e temos apenas que lidar com isso. E Ernaux o faz muito bem.
autora: Annie Ernaux
país: França
leitura: livro físico
playlist: annecy

.png)
Comentários
Postar um comentário