A REDOMA DE VIDRO

 




Um dos últimos livros de 2024 foi “A redoma de vidro”, que foi uma releitura. Mas foi quase como uma primeira vez…

Já comentei isso quando escrevi sobre no Instagram, mas aqui tem mais espaço e vale a pena ser dito de novo: eu não sabia o peso de ser quem sou quando li o livro pela primeira vez. Essa história foi um soco no estômago naquela época do início da adolescência. Eu não sabia explicar que me sentia parecida com a Esther, a protagonista.

Ao reler, quase 20 anos depois, já sabia diagnosticar a semelhança com exatidão e me senti acolhida por uma autora suicida, que escreveu todas essas complexidades muito antes de eu nascer.

Esther é uma jovem promissora que caminha pelo início de uma carreira jornalística de sucesso, mas sua saúde mental está em frangalhos. E, por ser apenas o século XX, ela não sabe o que fazer.

Sylvia Plath escreveu “A redoma de vidro” quase como uma autobiografia psicológica involuntária. Esther é o espelho da sua alma, dolorosamente exposto para o mundo à julgar.

Enquanto transita entre essa ou aquela opção de terapia, Esther se sufoca em um oceano de incertezas e tentativas de suicidio. É sufocante e avassalador. E não é fácil de digerir.

Usar a fase adulta para voltar aos braços melancólicos de Plath foi divertido. Foi claustrofóbico e reflexivo, que é o que Plath sem dúvida sentiu enquanto escrevia. Não há espaços para “talvez”, apenas a dor de ser miseravelmente desarmada das barreiras emocionais.

Dito isso: “A redoma de vidro” não é fácil.

Há poucos livros tão dolorosamente reais, sufocantes e poéticos, ao mesmo tempo, sobre a incapacidade física de melhorar, que transtornos mentais causam… “A redoma de vidro” é um deles.

Existe tentativa e erro, mas é uma obra sobre o peso da desesperança. Sem meio termo.

A escrita de Plath é cataclísmica e aconchegante, de uma só vez, apesar da crueza do tema. É como conversar com aquela amiga melancólica que tenta ser positiva, mas que as expressões a traem.

Sinto que, ao longo da minha vida, ainda vou voltar mais vezes para essa obra. Vou me agarrar à ela sempre que precisar mencionar a dor que é sentir demais, racionar de menos, e ser engolida pela minha própria falta de eixo.

É decadente, mas é lindo. Plath é refúgio para dor, e esse livro é mágico.

Adieu!



autora: Sylvia Plath

país: EUA

leitura: livro físico

playlist: glasgow

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