AS MADONAS DE LENINGRADO

 




A guerra destrói tudo que toca. Desde cidades até pessoas. Mesmo porque, sobreviver à guerra não quer dizer que se está vivo.

E o livro “As madonas de Leningrado” é a prova disso.

Marina foi diagnosticada com Alzheimer há poucos meses, mas tem que manter a compostura diante da família, pelo menos só pelo fim de semana em que vai ficar em uma ilha de veraneio, tudo para o casamento da neta… Só que tudo dá errado.

Enquanto Elena, sua filha, se agarra ao que tem de conhecimento sobre o passado misterioso de Maria para lidar consigo mesma, a própria Marina volta no tempo por causa da sua condição neurológica.

Como guia do Hermitage durante os anos antecessores e decorrentes da Segunda Guerra Mundial, Marina se lembra de cada madona exposta nas paredes do museu, enquanto nem consegue se lembrar da própria família.

E isso dói.

A lenta deterioração das memórias recentes faz do livro uma obra de arte particular. O drama familiar quase some diante de cada fragmento do passado que Marina ainda tem ou que tenta manter vivo. O esvaziamento do museu, a decomposição familiar, a fome e o horror da morte e da invasão. O cerco de Leningrado… Tudo dói.

Terminei o livro quase chorando. O peso da história esmagando as emoções mais intensas e abraçando nossa dos com as lástima de ver a vida rebobinando.

A escrita nos abraça. É realmente muito confortável ler essa história; as cenas mais tristes são bonitas e claras, não há agonização das mágoas e tudo flui com muita simplicidade. Dean sabe bem o que está fazendo e não se intimida em tocar em assuntos dolorosos sobre a Rússia e sua participação na guerra.

Marina e sua família são quase reais, de tão bem escritos.

Gostei muito da abordagem sincera sobre os temas escolhidos, especialmente sobre a guerra, que a autora explica serem tirados de registros reais. Ver a parte da história russa, que não é apenas a versão de suas vitórias, foi o que mais gostei.

Pensei muito em “Jardim de inverno” enquanto lia… A história da relação mãe e filha toca, com delicadeza, nessa visão das mães russas que são exigentes, severas e distantes. A imagem coletiva se ajusta.

Quero indicar essa leitura para todos que conheço. Quero que a beleza da vida seja vista por todos, pelos olhos de Marina.

Adieu!



autora: Debra Dean

país: Rússia

leitura: livro físico

playlist: kalocsa

Comentários