ESÔFAGO




Lígia se depara com um acidente no metrô, bem no dia em que está atrasada para o trabalho. E seria só um fato aleatório, se a pessoa que se jogou nos trilhos não fosse alguém que ela queria que morresse

Com uma vida corriqueira da cidade grande, que traga todos sem piedade, Lígia vai e volta no tempo das próprias experiências, enquanto tenta cuidar da própria saúde, que está começando a minguar (fisicamente) pelo esôfago.

Lidar com a morte daquela mulher que ela odiou por toda uma vida, causa em si um luto quase reparador. Enquanto rememora seu passado, que exibe um lar com um pai traidor e o bullying na escola, seu protagonismo nos causa aflição e dor física.

Enquanto lia, sentia que meu esôfago também se adoecia. A dor intensa é quase palpável…

Dito isso: que livro maravilhoso!

Me identifiquei tanto com a obra que levei a história para a terapia, com trechos destacados. Mas Lígia é muito mais corajosa do que eu.

Enquanto ela decidiu confrontar seus pesadelos e demônios, sigo no campo das ideias… Se fosse um pouco menos tratada, metade das pessoas que cruzaram meu caminho já teriam recebido uma dose cavalar da vingança que mereciam.

A obra é boa nesse nível. Li querendo drenar meus próprios demônios.

Por ser nacional, a história tem todo o peso de referências que dialogam diretamente conosco. Até os tipos de ofensas e de surtos pessoais.

“Esôfago” deveria virar filme, deveria sair das páginas e alcançar públicos não leitores, abrir espaço para discutirmos sobre infâncias traumáticas em ambientes escolares, sem aquele glamour patético que os EUA vende em seus musicais colegiais. Temos que parar de fingir que crescer no Brasil é mais idílico só porque não estamos cometendo massacres em escolas.

Na história também tem um momento a lá Semana de Arte de 1922… Essa é uma parte importante e interessante na história. Adorei!

A obra discute isso com consciência, nos guiando pelos traumas de Lígia em um looping complexo de emoções. Ela é uma pessoa quebrada, porque só não é quebrado quem tem a tríade do privilégio: família amorosa, colegas de escola gentis e dinheiro suficiente para não derreter na própria miséria.

“Esôfago” é forte, avassalador e impecável. A história é lindamente escrita e cuidadosamente amarrada. Nada choca. Tudo flui.

Adieu!



autor: Italo Oliveira 

país: Brasil

leitura: Kindle 

playlist: blumenau

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